Fé, salvação e compromisso: como dialogar com quem questiona a dimensão social da Campanha da Fraternidade

Em muitas formações pastorais sobre a Campanha da Fraternidade, especialmente quando o tema toca questões sociais, surgem resistências e questionamentos sinceros. Há pessoas que amam a Igreja, valorizam a oração e os sacramentos, mas têm dificuldade em reconhecer a dimensão social da fé e em compreender como a Campanha da Fraternidade se relaciona com a salvação cristã. Diante disso, o desafio pastoral não é o confronto, mas o diálogo paciente, capaz de ajudar a comunidade a amadurecer sua compreensão do Evangelho.

As perguntas que normalmente aparecem nessas situações revelam muito mais do que simples oposição. Questionamentos como “a Campanha da Fraternidade não é política demais?” ou “Jesus não veio salvar as almas?” expressam uma fé muitas vezes espiritualizada, centrada no indivíduo e desconectada da vida concreta. Não se trata de má vontade, mas de uma visão limitada da salvação, entendida apenas como realidade futura e individual, sem consequências históricas.

Outras perguntas recorrentes — “a Igreja não deveria se ocupar só de oração e doutrina?” ou “não seria melhor deixar esses temas para o governo?” — mostram uma separação artificial entre fé e vida social. Nesse horizonte, a ação social aparece como algo opcional, periférico ou até estranho à missão da Igreja. Identificar essas perguntas é fundamental para que o agente de pastoral não responda de forma defensiva, mas compreenda o ponto de partida de quem as formula.

O caminho mais fecundo não é rebater argumentos, mas fazer perguntas que provoquem deslocamento interior. Perguntas simples e profundamente evangélicas ajudam a pessoa a confrontar sua própria compreensão de fé. Onde, nos Evangelhos, Jesus separa o amor a Deus do amor ao próximo? Como interpretar o juízo final de Mateus 25, onde o critério é o cuidado com quem tem fome, sede ou está sem teto? É possível seguir Jesus ignorando os pobres que Ele colocou no centro de sua missão?

Quando a reflexão avança para o tema da salvação, surgem questões decisivas. Que tipo de salvação Jesus oferece: apenas após a morte ou já na história? Se a fé não transforma atitudes, relações e estruturas injustas, que tipo de fé está sendo vivida? A tradição cristã sempre afirmou que a salvação é integral: alcança a pessoa inteira e todas as dimensões da vida, inclusive a social.

Também é importante ampliar o horizonte eclesial. Desde os Atos dos Apóstolos, a Igreja se organizou para cuidar dos pobres, das viúvas e dos mais vulneráveis. Os Padres da Igreja, os santos e o Magistério Social nunca viram esse compromisso como desvio da fé, mas como sua consequência natural. Perguntar se eles “se desviaram” ajuda a perceber o quanto a dimensão social está enraizada na própria Tradição da Igreja.

As perguntas mais transformadoras, porém, são as existenciais. Se eu estivesse sem casa, gostaria apenas que a Igreja rezasse por mim ou também que se mobilizasse? Que imagem de Deus anunciamos quando celebramos belamente, mas permanecemos indiferentes ao sofrimento humano? Essas questões não acusam; elas tocam a consciência e aproximam fé e vida.

A Campanha da Fraternidade, nesse sentido, não afasta o cristão da salvação; ao contrário, ajuda a vivê-la de forma mais evangélica. Ela aproxima a fé da realidade concreta, provoca conversão quaresmal e impede que a espiritualidade se torne alienada. Não há verdadeira conversão sem compromisso com o irmão que sofre, pois o Evangelho nunca separa oração, amor a Deus e responsabilidade com o próximo.

Por isso, o objetivo pastoral não é “vencer um debate”, mas acompanhar um processo. Trata-se de ajudar a pessoa a passar de uma fé desencarnada para uma fé evangélica; de uma salvação individualista para uma salvação integral. A pergunta que pode encerrar esse caminho de forma simples e direta continua sendo profundamente atual: se Jesus viesse hoje e visse pessoas sem teto, vivendo nas ruas e ameaçadas de despejo, Ele diria apenas “rezem mais” ou também “façam algo por elas”?

Perguntas para reflexão

  1. Que imagem de fé e de salvação sustenta nossas posições quando questionamos a dimensão social da Campanha da Fraternidade?
    (Uma fé centrada apenas no indivíduo ou uma fé encarnada, que integra oração, conversão e compromisso com o próximo?)
  2. De que maneira o Evangelho de Jesus confirma — ou desafia — a separação entre amor a Deus e responsabilidade social que muitas vezes fazemos?
    (Especialmente à luz de textos como Mt 25,31–46 e Jo 1,14.)
  3. Como a Campanha da Fraternidade pode ajudar nossa comunidade a viver uma salvação mais integral, que una espiritualidade, vida concreta e cuidado com os mais pobres?

Posts Similares

1 Comentário

  1. Texto bastante desafiador e próprio para discutirmos em grupos de estudos da comunidade. Parabéns pela reflexão sobre a CF 2026. A nossa igreja precisa de ações concretas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *