
Os números 62 a 68 do Texto-Base da Campanha da Fraternidade 2026 introduzem uma virada importante na reflexão ao tratar da casa como comunidade de fé. O documento afirma que a moradia não é apenas espaço físico de abrigo, mas lugar privilegiado de relações, convivência, transmissão da fé e experiência comunitária. A casa aparece como primeiro espaço de humanização e de vivência do Evangelho.
A tradição bíblica e cristã reconhece a casa como espaço de encontro com Deus. Desde o Antigo Testamento até as primeiras comunidades cristãs, a fé foi vivida e transmitida no ambiente doméstico. No Novo Testamento, as casas tornam-se lugares de anúncio, partilha, oração e celebração, dando origem às chamadas igrejas domésticas. Assim, a evangelização nasce e se fortalece no cotidiano da vida.
O Texto-Base destaca que a casa é o lugar onde se aprendem valores fundamentais como solidariedade, cuidado, partilha e respeito. Quando a moradia é precária ou inexistente, esses vínculos são profundamente afetados. A insegurança habitacional fragiliza a vida familiar, rompe laços comunitários e dificulta a transmissão da fé às novas gerações.
Nesse sentido, o documento afirma que a crise da moradia é também uma crise de relações e de pertencimento. A ausência de um lar digno compromete a possibilidade de convivência saudável, de intimidade e de estabilidade. Por isso, defender a moradia digna é também defender a família, a comunidade e a própria experiência cristã de comunhão.
O Texto-Base ressalta ainda que muitas comunidades eclesiais nascem e se organizam a partir das casas, especialmente nas periferias urbanas e áreas de moradia precária. Nessas realidades, a casa torna-se espaço de resistência, de organização popular e de expressão da fé do povo. A Igreja se faz presente quando reconhece e valoriza essas experiências simples e encarnadas.
Ao tratar da casa como comunidade de fé, o documento também amplia o olhar para além da família nuclear. A casa é entendida como espaço de acolhida, hospitalidade e abertura ao outro, especialmente aos mais vulneráveis. Essa dimensão desafia uma vivência individualista da fé e convida à construção de relações fraternas e solidárias.
Por fim, os números 62 a 68 reforçam que a evangelização não pode prescindir das condições concretas de vida das pessoas. Anunciar o Evangelho implica cuidar da casa onde a fé é vivida. A moradia digna aparece, assim, como condição essencial para que a casa seja realmente lugar de fé, de comunhão e de testemunho cristão no mundo.
Perguntas para reflexão
- Como a realidade da moradia influencia a vivência da fé nas famílias e comunidades?
- De que forma nossas casas podem se tornar espaços mais vivos de oração, partilha e solidariedade?
- O que muda na ação pastoral quando reconhecemos a casa como lugar privilegiado de evangelização?


