Primeiro artigo da série sobre a Campanha da Fraternidade 2026

Refletir sobre a casa na Sagrada Escritura é dar início a um caminho bíblico e pastoral fundamental para compreender a proposta da Campanha da Fraternidade 2026. Desde o Antigo até o Novo Testamento, a “casa” aparece como uma realidade profundamente ligada à dignidade humana, à fé e à organização da vida social. Não se trata apenas de um tema material, mas de uma categoria teológica que revela o modo como Deus deseja habitar com seu povo.
Na Bíblia, o primeiro significado da palavra “casa” refere-se à habitação, ao espaço físico onde as pessoas residem. As Escrituras mencionam desde tendas simples até palácios, evidenciando diferentes contextos sociais e econômicos. Ainda assim, a Palavra de Deus deixa claro que a moradia é uma necessidade básica, indispensável para a proteção, a segurança e a vida digna de cada pessoa e família.
Um segundo significado importante é o de lar. Diferente da simples construção, o lar é o espaço da convivência, das relações e da permanência. É na casa que as pessoas se encontram, se alimentam, adoecem, se curam e celebram a vida. Nos Evangelhos, Jesus entra nas casas, ali cura, perdoa e restaura pessoas, revelando que o lar é lugar privilegiado da ação salvadora de Deus.
O conceito bíblico de casa amplia-se ainda mais quando se associa à terra. A terra é apresentada como dom de Deus, confiada ao ser humano para o cultivo e a subsistência. Com a passagem de um povo nômade para um povo sedentário, morar significa estabelecer-se, trabalhar e garantir condições de vida para a família. Casa e terra tornam-se inseparáveis como sinais da bênção divina e da fidelidade à aliança.
A legislação bíblica reforça essa visão ao proteger a terra e impedir sua concentração. A proibição da venda definitiva das propriedades e a lei do resgate familiar expressam um projeto de justiça social, no qual a casa e a terra não podem ser absolutizadas como mercadoria, mas devem servir à vida e à dignidade das pessoas. A fé, nesse sentido, tem consequências sociais concretas.
Outro significado essencial de “casa” é o de família e descendência. Na Bíblia, a casa inclui não apenas o núcleo familiar imediato, mas também parentes, empregados e todos os que fazem parte do grupo doméstico. Trata-se de uma unidade social marcada por vínculos de pertença, proteção e responsabilidade mútua, onde a vida é cuidada e transmitida.
Essa compreensão se estende aos clãs e grupos domésticos, que funcionavam como verdadeiras redes de proteção social. Era na casa que os mais vulneráveis — pobres, viúvas, órfãos e estrangeiros — encontravam acolhida e cuidado. Assim, a casa assume um papel central na construção da solidariedade e da justiça, antes mesmo de qualquer estrutura política organizada.
A Sagrada Escritura também apresenta a casa como morada de Deus. No Antigo Testamento, o Templo é chamado de casa do Senhor, sinal de sua presença no meio do povo. No Novo Testamento, as primeiras comunidades cristãs se reúnem nas casas, que se tornam igrejas domésticas. Deus escolhe habitar o cotidiano e a simplicidade da vida humana.
Em perspectiva escatológica, a casa aponta para a morada definitiva junto de Deus. Jesus fala da “casa do Pai” como destino final dos que permanecem no amor. Essa esperança ilumina o presente e relativiza toda posse, lembrando que a plenitude da vida não se encontra na acumulação, mas na comunhão.
Por fim, a Escritura afirma que cada pessoa é chamada a ser casa e morada de Deus. Pelo Espírito, o coração humano torna-se templo vivo. Iniciar a reflexão da Campanha da Fraternidade 2026 a partir dessa perspectiva bíblica é reconhecer que cuidar da casa — seja ela física, familiar, social ou espiritual — é cuidar da vida, da dignidade e da fraternidade.
Perguntas para reflexão
- Que significado a palavra “casa” assume hoje em minha vida pessoal, familiar e comunitária?
- Como a visão bíblica da casa desafia nossa sociedade marcada pela desigualdade habitacional?
- De que forma nossa comunidade cristã pode ser, concretamente, uma “casa” de acolhida, justiça e esperança?

