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A economia ao serviço da pessoa humana: justiça social e vocação cristã na vida econômico-Social (GS 63–72)

Nos números 63 a 72 da Gaudium et Spes, o Concílio Vaticano II afirma com clareza que a vida econômico-social deve estar integralmente a serviço da pessoa humana. O homem é apresentado como protagonista, centro e fim da economia, jamais como simples instrumento da produção ou do lucro. Toda organização econômica deve respeitar a dignidade humana e promover o bem comum de toda a sociedade.

O Concílio reconhece os avanços da economia moderna: o progresso técnico, o aumento da produção, a intensificação das relações entre povos e a maior intervenção do poder público. Contudo, junto a esses avanços, surgem graves desequilíbrios: desigualdades crescentes, concentração de poder econômico, coexistência de luxo e miséria e condições de vida indignas para muitos trabalhadores. Tais contradições geram inquietação moral e colocam em risco a própria paz social e internacional.

Diante desse cenário, a Igreja reafirma os princípios de justiça e equidade que brotam do Evangelho e da reta razão. O progresso econômico, para ser autêntico, exige reformas estruturais e uma mudança profunda de mentalidade e de hábitos. Não basta crescer economicamente; é necessário humanizar esse crescimento, orientando-o para a inclusão, a solidariedade e o respeito aos mais frágeis.

No que se refere ao desenvolvimento econômico, o Concílio sublinha que sua finalidade não é o lucro ou o poder, mas o serviço do homem integral. A produção agrícola, industrial e de serviços deve atender às necessidades materiais, culturais, morais e espirituais das pessoas. Por isso, a economia deve submeter-se à ordem moral e ao desígnio de Deus, evitando tanto o liberalismo sem freios quanto os sistemas que sacrificam a liberdade pessoal em nome de uma organização coletiva rígida.

O desenvolvimento econômico precisa ser dirigido conscientemente pelo homem e não abandonado ao automatismo do mercado ou ao controle de poucos. O Concílio defende a participação ampla dos cidadãos e das nações nas decisões econômicas, especialmente em âmbito internacional. A corresponsabilidade é condição para que o progresso seja verdadeiramente solidário e não gere novas formas de dominação ou exclusão.

Um ponto central do texto conciliar é a necessidade de eliminar as grandes desigualdades econômico-sociais. A justiça exige atenção especial aos agricultores, migrantes, trabalhadores idosos ou doentes e às regiões menos desenvolvidas. O trabalho digno, a formação profissional, a mobilidade humana protegida e a integração social são apresentadas como exigências concretas da dignidade humana.

O trabalho ocupa lugar privilegiado na reflexão conciliar. Ele procede da pessoa, sustenta a vida, fortalece a fraternidade e associa o homem à obra criadora e redentora de Deus. Por isso, todo trabalhador tem direito a condições justas, remuneração adequada, descanso, tempo para a vida familiar e possibilidade de desenvolver suas capacidades. Organizar a economia de modo que prejudique o trabalhador é considerado injusto e desumano.

O Concílio valoriza a participação dos trabalhadores na vida das empresas e nas decisões econômicas mais amplas. Reconhece o direito de associação, o papel legítimo dos sindicatos e a importância do diálogo social. Embora a greve seja vista como último recurso, ela pode ser moralmente legítima quando necessária para defender direitos fundamentais, desde que se busque sempre a via da negociação e da conciliação.

Um princípio decisivo apresentado é o destino universal dos bens. A terra e seus recursos são destinados a todos, e a propriedade privada, embora legítima, possui uma função social. O uso egoísta dos bens é condenado, e a obrigação moral de socorrer os pobres é reafirmada com vigor. Em situações de extrema necessidade, o Concílio recorda que o direito à vida precede o direito à propriedade.

Por fim, a Gaudium et Spes convida os cristãos a assumirem um compromisso ativo na vida econômico-social, iluminados pelo Evangelho e pelas bem-aventuranças. A busca do Reino de Deus não afasta da história, mas fortalece a luta pela justiça, pela caridade e pela paz. Assim, a economia torna-se espaço concreto de testemunho cristão e de colaboração na construção de uma sociedade mais humana e fraterna.

Perguntas para reflexão:

  1. De que maneira nossas opções econômicas pessoais e comunitárias expressam, de fato, a centralidade da dignidade humana e do bem comum?
  2. Como os cristãos podem atuar na vida econômico-social para promover justiça, participação e solidariedade sem perder a fidelidade ao Evangelho?

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