
Nos números 77 a 90 da Gaudium et Spes, o Concílio Vaticano II enfrenta com grande realismo e esperança o tema da paz e da comunidade internacional. Em um mundo marcado pelas dores da guerra e pela ameaça constante de conflitos armados, o Concílio reconhece que a humanidade chegou a uma hora decisiva de maturação histórica: ou aprende a viver como uma única família, ou arrisca-se à própria destruição.
A paz, afirma o Concílio, não se identifica com a simples ausência de guerra nem com o frágil equilíbrio de forças opostas. Ela é, antes de tudo, “obra da justiça” e fruto de uma ordem moral querida por Deus. Por isso, a paz precisa ser continuamente construída, exigindo respeito à dignidade humana, partilha solidária dos bens, prática da fraternidade e superação das paixões egoístas que alimentam os conflitos.
A raiz última da paz cristã encontra-se em Cristo, Príncipe da Paz, que reconciliou a humanidade com Deus pela cruz e derramou o Espírito de amor nos corações. Assim, os cristãos são chamados a ser construtores da paz, não apenas por palavras, mas por uma vida marcada pela verdade, pela caridade e pela renúncia à violência como meio de reivindicação.
Diante da permanência das guerras e da brutalidade crescente dos conflitos modernos, o Concílio denuncia com vigor as atrocidades cometidas em nome da guerra, especialmente aquelas que atentam contra populações inteiras, raças ou minorias. Tais atos são declarados crimes contra Deus e contra a própria humanidade, não podendo ser justificados por nenhuma ordem ou obediência cega.
Particularmente grave era o perigo da chamada “guerra total”, potencializada pelo uso das armas científicas e de destruição em massa. O Concílio condena sem hesitação toda ação bélica que vise indiscriminadamente à destruição de cidades e povos inteiros, alertando governantes e chefes militares para sua responsabilidade histórica e moral diante de Deus e das futuras gerações.
A corrida armamentista é apresentada como um dos maiores escândalos do nosso tempo. Longe de garantir uma paz verdadeira, ela alimenta a desconfiança entre as nações, desvia recursos que poderiam aliviar a miséria dos povos e mantém o mundo sob permanente ameaça. O equilíbrio baseado no medo não é paz autêntica, mas uma tensão instável que pode levar à catástrofe.
Por isso, o Concílio defende com clareza a necessidade de um esforço decidido em favor do desarmamento progressivo e da criação de uma autoridade internacional eficaz, reconhecida por todos, capaz de garantir a justiça, a segurança comum e o respeito aos direitos humanos. A paz duradoura exige confiança mútua, reforma das mentalidades e educação para novos sentimentos pacíficos.
A construção da comunidade internacional passa, necessariamente, pela superação das causas profundas das guerras: as injustiças econômicas, as desigualdades gritantes entre nações, o espírito de dominação e o desprezo pelas pessoas e povos. Nesse sentido, as instituições internacionais são vistas como instrumentos preciosos para promover o desenvolvimento integral, atender às necessidades básicas e prevenir novos conflitos.
O Concílio dedica atenção especial à cooperação econômica internacional, insistindo que o progresso não pode ser guiado pela cobiça, pelo lucro excessivo ou por interesses ideológicos e militares. As nações mais desenvolvidas têm um grave dever moral de ajudar as mais pobres, respeitando sua dignidade, suas culturas e promovendo um desenvolvimento verdadeiramente humano e solidário.
Por fim, a Gaudium et Spes convoca os cristãos a um compromisso ativo na promoção da paz e da justiça internacional. A Igreja, fiel à sua missão, deseja estar presente na comunidade das nações, colaborando com todos os homens e mulheres de boa vontade. Alimentada pelo Evangelho, ela anuncia que a paz é possível quando os corações se convertem, a fraternidade é vivida e a humanidade escolhe, com coragem, os caminhos da justiça e do amor.
Perguntas para reflexão:
- De que maneira minhas atitudes pessoais e comunitárias contribuem para construir a paz como obra da justiça e da fraternidade?
- Como a Igreja e os cristãos podem ser hoje sinais concretos de esperança e compromisso numa comunidade internacional marcada por conflitos e desigualdades?

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