Dando continuidade à série de artigos inspirados no Capítulo III da Gaudium et Spes, avançamos agora na reflexão sobre a ordenação da atividade humana e a justa autonomia das realidades terrenas. Após reconhecer o valor positivo do trabalho e do progresso humano, o Concílio propõe um discernimento mais profundo: como exercer a liberdade e a criatividade humanas sem romper sua referência última a Deus e ao bem integral da pessoa.

Trata-se de um ponto decisivo para compreender a relação madura entre fé, ciência, técnica e responsabilidade ética. O Concílio reconhece que o mundo criado possui leis próprias, que o ser humano deve respeitar, estudar e desenvolver. A autonomia das ciências, da cultura e da organização social não se opõe à fé, mas corresponde à vontade do próprio Criador.
Quando compreendida corretamente, essa autonomia favorece o progresso humano. A investigação científica, realizada com honestidade e segundo normas morais, jamais entra em contradição com a fé, pois ambas têm origem no mesmo Deus. Por isso, o Concílio lamenta atitudes do passado que levaram a falsas oposições entre fé e ciência, gerando escândalos e afastamentos desnecessários.
O problema surge quando a autonomia é entendida como independência absoluta de Deus. Quando o ser humano se considera senhor exclusivo da criação e de seu destino, a própria criatura se obscurece. O esquecimento do Criador conduz à perda de sentido, à absolutização do poder e à instrumentalização da pessoa humana.
Nesse contexto, o Concílio alerta para o fato de que o progresso, embora seja um grande bem, traz consigo tentações profundas. O crescimento material pode ser acompanhado pelo aumento do egoísmo, das desigualdades e da exclusão. A atividade humana, desordenada pelo pecado, deixa de servir à fraternidade e passa a ameaçar a própria humanidade.
A história humana é marcada por um combate constante entre o bem e o mal. O progresso técnico não elimina essa luta interior. Pelo contrário, sem conversão do coração, ele pode potencializar injustiças e violências. Por isso, a Igreja recorda a necessidade de não se conformar com a lógica deste mundo quando ela se afasta do Evangelho.
A superação dessa desordem não vem da negação do mundo, mas da purificação da atividade humana pela cruz e ressurreição de Cristo. Redimido, o ser humano é chamado a usar as coisas criadas com liberdade interior, gratidão e espírito de serviço, reconhecendo-as como dom de Deus e orientando-as para o bem comum.
Essa reflexão conciliar ajuda a superar falsas oposições entre fé e mundo, mostrando que a autonomia das realidades terrestres, quando corretamente entendida, não afasta o homem de Deus, mas o conduz a uma colaboração mais consciente com o seu desígnio criador. No próximo artigo desta série, aprofundaremos os limites e as feridas da atividade humana marcadas pelo pecado, bem como a necessidade de sua purificação à luz da cruz e da ressurreição de Cristo.
Perguntas para reflexão
- Como distinguir, na prática, a justa autonomia das realidades terrenas de uma falsa autonomia que exclui Deus?
- Em que situações percebo que o progresso pode estar servindo mais ao egoísmo do que à fraternidade?


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