Quarto artigo da série sobre a Campanha da Fraternidade 2026

A Campanha da Fraternidade 2026 insere o tema da moradia no coração da fé cristã ao recordar que não existe autêntica relação com Deus sem compromisso concreto com o próximo. Os Evangelhos são claros ao afirmar que o amor a Deus e o amor ao irmão são inseparáveis. Jesus resume toda a Lei nesse duplo mandamento e apresenta o cuidado com o outro, especialmente o mais vulnerável, como critério decisivo do juízo final. A fé, portanto, possui uma dimensão social constitutiva e irrenunciável.
O amor fraterno não é apenas uma recomendação moral, mas a marca distintiva do discípulo de Jesus. “Nisto todos reconhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,34-35). Essa afirmação desloca a fé do campo meramente intimista para o terreno das relações concretas, da justiça e da responsabilidade social. Crer em Cristo implica assumir sua forma de amar, que se traduz em cuidado, partilha e compromisso com a vida do outro.
Essa compreensão é retomada com força no magistério recente da Igreja. Como recorda o Papa Francisco, “no próprio coração do Evangelho aparecem a vida comunitária e o compromisso com os outros” (EG 177). A opção preferencial pelos pobres nasce da fé em Cristo que se fez pobre e se aproximou dos marginalizados. O empenho da Igreja com o bem comum e com a justiça social não é algo acessório, mas expressão coerente do Evangelho vivido.
Desde os primeiros séculos, essa dimensão social da fé foi firmemente afirmada pelos Padres da Igreja. Eles insistiram no destino universal dos bens e no cuidado com os pobres como exigência direta da fé cristã. A acumulação egoísta e a indiferença diante da miséria eram denunciadas como incompatíveis com a participação na vida eucarística e com a comunhão com Cristo.
São Basílio de Cesareia é uma das vozes mais contundentes nesse sentido. Ao comentar a parábola do rico insensato, afirma que aquilo que se guarda em excesso pertence aos pobres. Para ele, a injustiça não está apenas em roubar, mas também em não partilhar. Essa visão radical evidencia que a fé cristã questiona diretamente as estruturas de exclusão e a absolutização da propriedade privada.
Na mesma linha, João Crisóstomo estabelece um vínculo inseparável entre a Eucaristia e o cuidado com os pobres. Para ele, não é possível honrar o corpo de Cristo no altar e desprezá-lo fora da igreja, quando está nu, faminto ou sem abrigo. A liturgia, quando desvinculada da caridade e da justiça, perde sua coerência evangélica.
Desde o início da Igreja, a prática da hospitalidade foi uma consequência direta dessa fé encarnada. Acolher o estrangeiro, o pobre, o doente e o sem teto era entendido como acolher o próprio Cristo. A partir do século IV, surgem instituições organizadas pelas dioceses para acolhimento dos necessitados, como a célebre “Basiliade”, fundada por São Basílio, verdadeiro complexo de assistência aos pobres e peregrinos.
Bispos como São João Crisóstomo, em Antioquia, e Agostinho de Hipona, no Ocidente, também promoveram estruturas permanentes de acolhida, sustentadas pela solidariedade das comunidades cristãs. Essas iniciativas revelam que a preocupação com moradia, abrigo e hospitalidade faz parte da Tradição viva da Igreja, muito antes de qualquer formulação moderna de políticas sociais.
Essa consciência atravessa toda a história e ganha novo vigor a partir do final do século XIX com as Encíclicas Sociais, no contexto das profundas transformações provocadas pela Revolução Industrial. Elas expressam o discernimento da Igreja diante dos “sinais dos tempos” e constituem o que hoje chamamos de Doutrina Social da Igreja: um conjunto de princípios, critérios e diretrizes para a ação cristã na sociedade.
Partindo da dignidade da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, a Doutrina Social apresenta princípios fundamentais também para a questão da moradia. Entre eles destacam-se o bem comum, que reconhece a moradia como responsabilidade social e não apenas individual, e o destino universal dos bens, que recorda que a propriedade deve sempre servir à vida e à dignidade de todos. À luz da Campanha da Fraternidade 2026, essa dimensão social da fé convoca a Igreja a transformar a caridade em compromisso estrutural com a justiça e a fraternidade.
Perguntas para reflexão
- De que forma a fé cristã desafia uma vivência individualista e indiferente diante da falta de moradia?
- Como nossas comunidades podem expressar concretamente a dimensão social da fé no cuidado com os pobres e sem teto?
- Que princípios da Doutrina Social da Igreja podem iluminar ações pastorais voltadas à moradia digna?


