Quinto artigo da série sobre a Campanha da Fraternidade 2026

No centro da Campanha da Fraternidade 2026 está a afirmação fundamental da fé cristã: Deus fez morada entre nós. Em Jesus Cristo, Deus não apenas se revela, mas passa a habitar de modo definitivo a história humana. Jesus é apresentado no Evangelho de João como o novo e verdadeiro Templo, o lugar no qual Deus se deixa encontrar por todos, superando as antigas mediações e inaugurando uma nova relação entre Deus e a humanidade (cf. Jo 2,13-22).
Essa afirmação esteve no centro do conflito que levou Jesus à condenação. Ao identificar-se com o Templo, Ele anuncia o fim de uma compreensão restrita da presença de Deus, limitada a um espaço sagrado. Sua paixão, morte e ressurreição confirmam que a presença divina não está mais ligada a uma construção, mas à sua própria pessoa, entregue por amor. O nome “Emanuel”, Deus conosco, expressa essa realidade que acompanha toda a vida e missão de Jesus.
O lema da CF 2026 — “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14) — sintetiza toda a tradição bíblica da presença de Deus no meio do povo. Ao assumir a condição humana, o Filho de Deus toma a iniciativa de estabelecer uma Aliança definitiva, não mais mediada por instituições ou lugares, mas por sua própria carne. Jesus torna-se a memória viva da ação salvífica de Deus na história e o sinal concreto de sua proximidade.
No Antigo Testamento, a tenda acompanhava o povo no deserto como morada provisória, lembrando sua condição peregrina. Ao “armar sua tenda” entre nós, Jesus assume essa fragilidade própria da existência humana. Sua morada não é marcada pelo poder ou pela estabilidade, mas pela simplicidade e pela vulnerabilidade. Ele habita especialmente entre os pobres, aqueles que não têm teto seguro, revelando onde Deus escolhe estar.
A expressão “estabeleceu sua morada” remete às grandes experiências de Israel: a criação, o deserto, a Tenda da Reunião e o Templo. Em todas elas, Deus se faz presente e se deixa encontrar. Com a encarnação, essa presença alcança sua plenitude, pois em Jesus desaparece a distância entre o céu e a terra. Ele é o novo e definitivo lugar do encontro entre Deus e a humanidade.
A tradição bíblica fala da glória de Deus como manifestação luminosa de sua presença salvadora. Essa glória, antes associada ao Sinai, à Tenda e ao Templo, agora se revela na pessoa de Jesus. Em sua humanidade, a glória divina se torna acessível, visível e próxima. A condição humana do Filho torna-se o espaço onde Deus se comunica e salva.
No Evangelho de João, essa glória manifesta-se de modo supremo na cruz. A morte de Jesus não é fracasso, mas revelação do amor radical de Deus. Toda a sua vida — marcada pela compaixão, pela proximidade com os excluídos e pela defesa da vida — já é expressão dessa glória. A cruz confirma que Deus escolheu a solidariedade como caminho definitivo de salvação.
O prólogo joanino destaca que a própria vida de Jesus é a graça de Deus em nosso meio. Antes mesmo de falar da cruz, João proclama que a encarnação é dom, luz e vida para todos. Na carne do Filho, Deus revela quem Ele é e quem somos nós, desvelando seu projeto de amor criador e salvador para toda a humanidade.
Para João, Jesus não apenas anuncia o Evangelho: Ele é o Evangelho. Nele, o Reino de Deus se torna presente e acessível. Jesus é a tenda definitiva, o tabernáculo vivo, no qual se cumpre a promessa de Deus de habitar para sempre no meio do seu povo. Sua presença inaugura um tempo novo, no qual Deus caminha com a humanidade.
Essa presença não apenas recorda nossa origem, mas orienta o futuro. A comunidade cristã é chamada a dar testemunho e a tornar-se, ela mesma, morada de Deus no mundo. Aqueles que acolhem a Palavra e vivem segundo a vontade do Pai tornam-se espaço vivo da presença divina. À luz da Campanha da Fraternidade 2026, essa fé encarnada desafia a Igreja a ser sinal concreto de Deus que habita, caminha e sofre com seu povo.
Perguntas para reflexão
- O que significa afirmar que Deus fez morada entre nós na pessoa de Jesus Cristo?
- Como a encarnação de Jesus ilumina a realidade dos pobres e dos que não têm casa digna?
- De que forma nossa comunidade pode tornar-se hoje sinal visível de Deus que habita no meio do povo?


