O Sínodo de 1974: raízes da Evangelii Nuntiandi e sua chama para a Igreja de hoje

Em 1974, bispos de todo o mundo reuniram-se em Roma para o quarto Sínodo dos Bispos, com um tema urgente: “A Evangelização no Mundo Contemporâneo”. Esse encontro, marcado por debates intensos e busca de identidade, gerou as reflexões que culminaram na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, publicada por Paulo VI em 1975. Por que um evento de quase 50 anos ainda fala à Igreja de hoje? Como suas discussões ajudam a iluminar os caminhos da pastoral num mundo em transformação? 

O Sínodo de 1974 ainda buscava sua autodefinição como organismo consultivo. Criado para estreitar laços entre o Papa e os bispos, ele oscilava entre ser um “mini-concílio” e um espaço de aconselhamento. Essa tensão refletiu-se nos trabalhos, que produziram uma riqueza de debates, mas documentos finais considerados insuficientes. 

A metodologia do Sínodo priorizou o compartilhamento de experiências pastorais locais em vez de discutir um texto-base. Isso gerou uma pluralidade de vozes, mas também dificuldades para sintetizar um ensinamento coeso. A riqueza real estava nas intervenções e nas discussões em grupo, não no documento final. 

Os padres sinodais mapearam os grandes desafios da evangelização: a presença de religiões não-cristãs, os processos de descolonização, a secularização, o ateísmo programático, as injustiças sociais e a religiosidade popular. Cada continente trouxe sua perspectiva, mostrando uma Igreja diversa e em diálogo com realidades complexas. 

Uma das questões centrais foi a imagem da Igreja no mundo. Críticas surgiram sobre sua identificação com o colonialismo, com o capitalismo ocidental e com estruturas de poder. Isso levou à conclusão de que a Igreja precisa também evangelizar a si mesma, convertendo-se continuamente ao Evangelho. 

O Sínodo debateu intensamente a tensão entre o universal e o particular. Como equilibrar a unidade da fé com a inculturação nas diferentes culturas? Esse debate era crucial para as jovens igrejas da África e da Ásia, que buscavam uma identidade própria, sem romper com a catolicidade. 

Outro eixo fundamental foi a relação entre evangelização e libertação humana, impulsionado especialmente pelos bispos latino-americanos. O Sínodo afirmou que não há verdadeira evangelização sem compromisso com a libertação integral do ser humano, abrangendo dimensões espirituais e sociais. 

A ação do Espírito Santo foi entendida não como algo distante da realidade, mas como presente na luta pela justiça, na solidariedade e no testemunho dos evangelizadores. O Sínodo enfatizou que o Espírito age tanto nos que anunciam quanto nos que recebem a Boa Nova. 

A importância das Igrejas Particulares foi destacada, com uma mudança significativa na compreensão eclesiológica: da visão de uma Igreja Universal que se concretiza localmente para a valorização das igrejas locais como expressões plenas da única Igreja de Cristo, em comunhão com Roma. 

A alocução final de Paulo VI foi um estímulo aos trabalhos, não uma advertência. O Papa reforçou a necessidade de pluralidade na unidade, lembrando o exemplo dos apóstolos, e destacou a originalidade cristã no engajamento pela libertação. 

O Sínodo também aprovou uma Declaração sobre os Direitos Humanos, reafirmando o compromisso da Igreja com a justiça e a paz, e reconhecendo suas próprias falhas nessa caminhada. 

Desse Sínodo nasceu a Evangelii Nuntiandi, um documento que ampliou o conceito de evangelização, incluindo nele o testemunho de vida, o diálogo com as culturas e o compromisso com a transformação social. 

Hoje, num contexto de secularização crescente, desigualdades e pluralismo religioso, as reflexões do Sínodo de 1974 permanecem atuais. A evangelização continua a ser um chamado à conversão integral, ao anúncio corajoso e ao serviço aos pobres. 

A valorização das Igrejas locais e da sinodalidade, tão debatidas em 1974, ecoa no Sínodo sobre a Sinodalidade convocado pelo Papa Francisco. A escuta das comunidades e a corresponsabilidade missionária são heranças desse processo. 

O Sínodo de 1974 nos deixa perguntas para hoje: Como anunciar o Evangelho numa sociedade pós-cristã? Como a Igreja pode ser credível no testemunho da justiça? De que forma as comunidades de base podem renovar a vida eclesial? 

O Sínodo de 1974 foi mais que um evento histórico; foi um momento de esperança e discernimento coletivo. Suas luzes continuam a guiar a missão da Igreja, lembrando-nos de que evangelizar é partilhar a vida plena que Cristo oferece a todos. Que sua herança inspire-nos a ser, hoje, anunciadores alegres e comprometidos com o Reino.

Para aprofundar a compreensão deste documento tão fundamental, o Site Caminhos Pastoral lançará em breve uma série especial de artigos dedicada à Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi. Nossa série buscará desdobrar seus ensinamentos, explorar seu contexto histórico e, sobretudo, extrair suas urgentes aplicações para a pastoral em nossos dias.

Convidamos você, leitor, a acompanhar este percurso de estudo e reflexão, para que juntos possamos reacender o coração missionário da Igreja e revitalizar, com criatividade e fidelidade, a sempre atual tarefa de evangelizar. Fique atento e caminhe conosco!

Perguntas para Aprofundamento: 

1. O que o Sínodo de 1974 nos ensina sobre a relação entre fé e justiça social?

2. Como equilibrar unidade e diversidade na Igreja hoje? 

3. De que forma a Evangelii Nuntiandi pode iluminar a pastoral nas grandes cidades? 

4. Qual o papel das comunidades de base na evangelização contemporânea? 

Fonte: Sínodo dos Bispos (1974)

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