Segundo artigo da série sobre a Campanha da Fraternidade 2026

A Campanha da Fraternidade 2026, ao tratar do tema da moradia, convida a Igreja e a sociedade a olharem com maior atenção para uma das expressões mais graves da negação desse direito: a população em situação de rua. Trata-se de uma realidade que interpela diretamente a fé cristã, pois revela rostos concretos de homens e mulheres privados não apenas de uma casa, mas também de vínculos, proteção e reconhecimento social.
Dados recentes evidenciam a gravidade do problema. Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, divulgada em 2023 com base em informações de 2022, estimava cerca de 281,4 mil pessoas vivendo em situação de rua no Brasil. Esse número já representava um crescimento expressivo em relação a anos anteriores, indicando uma tendência preocupante de aumento contínuo dessa população.
Estudos mais recentes confirmam o agravamento do cenário. O Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, vinculado à Universidade Federal de Minas Gerais, apontou que, em dezembro de 2024, o número de pessoas em situação de rua chegou a 327.925. Isso representa um aumento de 25% em relação ao ano anterior e um crescimento de quase 14 vezes se comparado a 2013, quando os registros indicavam pouco mais de 22 mil pessoas.
A distribuição dessa população revela uma forte concentração nos grandes centros urbanos e regiões metropolitanas. Capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador concentram os maiores contingentes, evidenciando a relação direta entre urbanização desigual, custo de vida elevado e exclusão social. O espaço urbano, que deveria garantir oportunidades, torna-se, para muitos, lugar de abandono.
O estado de São Paulo apresenta o quadro mais expressivo do país. Somente a capital paulista concentrava, em 2022, mais de 50 mil pessoas em situação de rua. Esse dado explicita o paradoxo das grandes cidades: polos de riqueza, serviços e desenvolvimento que, ao mesmo tempo, produzem e aprofundam processos de exclusão e invisibilidade social.
O perfil dessa população também revela desigualdades estruturais profundas. A maioria das pessoas em situação de rua é composta por homens, cerca de 82%, com predominância de pessoas negras, que representam aproximadamente 70% do total. A faixa etária mais comum situa-se entre 25 e 44 anos, ou seja, adultos em idade produtiva, marcados por trajetórias de ruptura social e econômica.
As causas que levam alguém à situação de rua são múltiplas e interligadas. Entre os principais fatores estão o desemprego, a renda insuficiente, a crise econômica e o aumento da pobreza. Somam-se a isso os conflitos familiares, a violência doméstica, a dependência química, os problemas de saúde mental e a ausência ou fragilidade das políticas públicas de habitação e assistência social.
A pandemia da COVID-19 agravou significativamente esse cenário. O fechamento de postos de trabalho, a redução da renda familiar e o colapso de redes informais de apoio empurraram milhares de pessoas para as ruas. Ao mesmo tempo, os serviços de acolhimento e assistência social tornaram-se sobrecarregados, dificultando respostas eficazes diante do aumento da demanda.
Do ponto de vista bíblico e pastoral, a população em situação de rua desafia diretamente a compreensão cristã da casa como lugar de dignidade, proteção e pertencimento. A ausência de moradia revela uma ruptura profunda com o projeto de vida plena querido por Deus, que deseja que cada pessoa tenha um espaço para viver, reconstruir relações e projetar o futuro.
Inserir essa realidade no horizonte da Campanha da Fraternidade 2026 significa reconhecer que não há verdadeira fraternidade enquanto irmãos e irmãs permanecem sem casa, sem direitos e sem voz. A reflexão proposta pela Campanha convoca comunidades cristãs, pastorais e agentes sociais a assumirem um compromisso concreto de denúncia, solidariedade e promoção de políticas públicas que garantam o direito à moradia e à vida digna.
Perguntas para reflexão
- O que a realidade da população em situação de rua revela sobre as prioridades sociais e econômicas do nosso país?
- De que maneira essa situação interpela a fé cristã e a missão evangelizadora da Igreja?
- Quais ações concretas nossa comunidade pode assumir em favor das pessoas em situação de rua, à luz da Campanha da Fraternidade 2026?

