Ver a realidade da moradia: dor, exclusão e resistência (CF 2026, nn. 18–25)

Os parágrafos 18 a 25 do Texto-Base da Campanha da Fraternidade 2026 introduzem, de forma direta e pastoral, o primeiro momento do método Ver. Partindo da dor concreta do povo — expressa simbolicamente na canção Saudosa Maloca —, o texto convida a Igreja a não observar a realidade “da varanda”, mas a mergulhar nela com os olhos da fé e com o coração solidário, à maneira de Jesus, que entrou na história humana.

A realidade da moradia precária no Brasil é apresentada como uma situação amplamente difundida e, muitas vezes, aceita como algo normal. Essa naturalização da precariedade acaba por culpabilizar os pobres e legitimar a segregação social. O Texto-Base propõe romper com essa lógica, ajudando as comunidades a reconhecer que a falta de moradia digna é uma injustiça estrutural e não uma falha individual.

Ao indicar os elementos que serão analisados neste capítulo — desigualdade social, população em situação de rua, favelas, déficit habitacional, precariedade das moradias e políticas públicas —, o documento deixa claro que a questão da moradia é complexa e atravessada por múltiplos fatores. Ver a realidade, portanto, exige atenção, escuta e disposição para compreender causas profundas, e não apenas efeitos visíveis.

O Texto-Base afirma que a moradia é uma “mercadoria especial”: é o bem mais caro de consumo familiar e, ao mesmo tempo, absolutamente necessário à vida. Ninguém pode viver sem moradia, a não ser de forma provisória e desumana, como acontece com as pessoas em situação de rua. No entanto, a maior parte da população brasileira não possui renda suficiente para acessar o mercado imobiliário formal nem é plenamente atendida pelas políticas públicas de habitação.

Essa realidade se agrava porque a moradia depende do acesso à terra urbana, um bem escasso, não reproduzível e submetido à lógica da especulação. A localização define o preço da terra, o acesso à infraestrutura e aos serviços, e, consequentemente, produz desigualdade urbana. Morar na cidade não é apenas ter uma casa, mas ter acesso a transporte, saúde, educação, trabalho e segurança.

O documento ressalta que a moradia, no Brasil, está intrinsecamente ligada à questão da terra. A especulação imobiliária, a renda da terra e as políticas estatais influenciam diretamente o custo e a disponibilidade de habitações. Nesse contexto, a ocupação de terras para fins de moradia torna-se uma das principais expressões da luta dos pobres pelo direito de viver na cidade.

A partir de dados e análises, o Texto-Base recorda que moradia digna não se resume a quatro paredes e um teto. Segundo parâmetros internacionais, ela envolve segurança de posse, infraestrutura adequada, custos que não comprometam outras necessidades básicas, acessibilidade e adequação cultural. A moradia digna é apresentada como base para o exercício de todos os outros direitos humanos.

Mesmo reconhecida como direito humano e garantida pela Constituição brasileira, a moradia digna permanece inacessível para milhões de pessoas. Despejos forçados, enchentes, deslizamentos e ausência de políticas públicas adequadas revelam a vulnerabilidade cotidiana de famílias inteiras. A falta de moradia aparece, assim, como síntese de várias outras negações de direitos.

Por fim, o Texto-Base apresenta a ocupação de terras urbanas como parte de um processo histórico de exclusão. Muitas vezes toleradas em áreas desvalorizadas, essas ocupações passam a ser criminalizadas quando se tornam de interesse do mercado. A experiência da favela do Vidigal, citada no documento, mostra que a resistência organizada, com apoio da Igreja e de assessorias jurídicas, pode garantir o direito de permanecer e viver com dignidade.

Esses parágrafos inauguram a Campanha da Fraternidade 2026 com um chamado claro: ver a realidade da moradia é reconhecer rostos, histórias e sofrimentos concretos. Somente a partir dessa escuta atenta será possível iluminar com a fé e agir de forma coerente com o Evangelho da fraternidade.

Perguntas para reflexão

  1. De que maneira a moradia precária tem sido naturalizada em nossa cidade ou comunidade?
  2. Que fatores estruturais mais contribuem para a exclusão do direito à moradia digna no Brasil?
  3. Como nossa comunidade pode aprender a “ver” essa realidade com mais sensibilidade evangélica e compromisso social?

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