
O momento do Ver, na Campanha da Fraternidade 2026, não é um exercício meramente sociológico nem uma leitura fria de dados e estatísticas. Trata-se, antes de tudo, de um ato de fé. Ver, à luz do Evangelho, é permitir que a realidade seja contemplada com os mesmos olhos compassivos de Jesus, que se aproxima do sofrimento humano, escuta o clamor dos pobres e se deixa tocar pela dor do povo. Sem essa dimensão espiritual, o Ver corre o risco de tornar-se apenas análise técnica, incapaz de gerar conversão.
A fé cristã ensina que Deus não é indiferente à história humana. Ao “vir morar entre nós”, Ele assume a realidade concreta da vida, com suas contradições, feridas e esperanças. Por isso, o Ver da CF 2026 exige um olhar encarnado, que reconheça a presença de Deus nas periferias, nas favelas, nas ocupações e nas ruas. Não se trata apenas de identificar problemas, mas de discernir onde a vida está ameaçada e onde Deus continua agindo silenciosamente.
Ver com fé significa também romper com a indiferença. A espiritualidade cristã não permite neutralidade diante da injustiça. Quando a moradia precária é naturalizada, quando o despejo é tratado como algo inevitável ou quando a situação de rua é vista como fracasso individual, a fé é esvaziada. O Ver, iluminado pela fé, devolve rosto, nome e história às pessoas, recolocando a dignidade humana no centro.
A dimensão da fé no Ver ajuda a comunidade a superar julgamentos morais simplistas. Em vez de perguntar “por que essas pessoas não conseguem sair dessa situação?”, o olhar crente pergunta “que estruturas produzem essa exclusão?” e “onde está nossa responsabilidade como Igreja e sociedade?”. Assim, a fé se torna critério de discernimento, capaz de desmascarar discursos que culpabilizam os pobres e legitimam a desigualdade.
Além disso, ver com fé é reconhecer o clamor que sobe até Deus. A Escritura é clara ao afirmar que Deus escuta o grito dos oprimidos. No contexto da CF 2026, esse clamor se expressa na falta de moradia, na insegurança habitacional e na exclusão urbana. O Ver, vivido como atitude espiritual, transforma-se em oração, em súplica e em intercessão, preparando o coração para a conversão quaresmal.
A fé também impede que o Ver se transforme em pessimismo ou paralisia. Mesmo ao contemplar uma realidade dura e injusta, o olhar crente é capaz de perceber sinais de resistência, solidariedade e esperança. Comunidades organizadas, lutas populares, gestos de partilha e presença pastoral revelam que o Espírito continua agindo na história. Ver com fé é enxergar não apenas as feridas, mas também as sementes do Reino.
Por fim, a dimensão da fé no Ver é fundamental para garantir a unidade do caminho pastoral. Ela impede a separação entre espiritualidade e compromisso social. Ao olhar a realidade da moradia com fé, a comunidade se prepara para iluminar com a Palavra de Deus e agir com coerência evangélica. Assim, o Ver deixa de ser um ponto de partida meramente analítico e se torna verdadeiro caminho de conversão, fidelidade ao Evangelho e compromisso com a fraternidade.


